Crime silencioso

Quem permitiu me roubar o direito de pensar em nada?
Desde então não tenho mais a mente vazia.
O prazer de nada ser, nada fazer, nada existir me foi retirado.
Penso, leio, respiro, estudo, trabalho, rabisco, me divirto,
Mais volta e meia me pego pensando em você.
Talvez chegasse à hora de me devolver o silêncio de minha mente
Onde sempre me recorri para esquecer os problemas
E agora só ouço a sua voz.
Preciso de sua presença da mesma forma que preciso da minha solidão,
Elas não podem conviver em harmonia.
São inimigas e nunca dividem o mesmo espaço.
Resta-me saber qual delas viverá.
Cometeu esse crime? Se entregue ou fuja.
Não fique aguardando um julgamento infindável.

Sentimento inexplicável.

E nos abraçamos.
Pessimismo e insegurança.
Doce casal andando de mãos dadas.
Eles se olham e sentem, estão apaixonados. Entretanto não se beijam.
Esse amor não necessita de gestos carnais, ele é sensível ao toque.
Ele existe e vive em nós.
Sem segurança de se relacionar.
Sem otimismo para se conciliar.
Mas com esperança de que ao acordar seremos outros.
Aqueles que rotineiramente almejamos ser.


O cavaleiro cavalheiro

Foi com 12 anos que aprendi a diferença entre cavalheiro e cavaleiro.
E com uma doce brincadeira nunca mais confundi as palavras.
Pois saiba
que todo homem que é aprumado, gentil e tem boa educação
Já trás na bagagem uma sutil cadeira, pois ele a retira para uma dama,
O bem apessoado é o cavalheiro, com h em meio aos caracteres de sua formação.
Já a
quele rude desbravador, sem tem tempo de ser delicado com os que lhe cercam
Surgindo imponente e saindo avassalador, grosseiramente lhe diz um oi
Parte para mais uma batalha. Esse é o cavaleiro, simples e sedutor.
Aos 12 anos aprendi também
que devemos nos tornar belos cavalheiros.
Mas acompanhado da imagem de minha satisfação me tornei um cavaleiro.
É mais interessante, nos trás mais benefícios e não nos deixa sofrer.
O mais educado não lhe retira uma cadeira, nos presenteia com sua presença.

Par antiquado

Foto: Katy K.
Mesmo fora de moda eu ainda quero encontrar o meu.

Findar um laço

Mesmo não suportando sua presença
Mesmo me irritando a cada conversa
Tudo é amplo demais para chegar ao fim.
Quero lhe contar minhas dores
Entre em minha vida e absorva minha essência
Quero revelar minhas lastimas, contar quem amei.
Me conheça, me oriente, me coloque de volta no rumo certo.
Faça parte da minha vida. Minha alma clama por cumplicidade.
Os segredos se acumulam. Eles me causam angustia.
Sufocam os pensamentos.
Estou à deriva, em um caos alimentado por mentiras
E ao me deparar com as divergências em meu caminho, eu fujo.
Corro em direção oposta aos meus desejos.
Assim continuo com esse laço, mal amarrado e desbotado.
Sou fraco. Confesso minha fragilidade.

Face, olhos e um dicionário chinês

Apresento minha face, não me escondo em argumentos, eles são confusos.
Se minha pele lhe ofereço, se meu beijo lhe prometo, não disfarço com ambiguidades.
Ser o que sou é mais fácil, sentir o que sinto é mais prazeroso. Se pudesse ver como é. Os sentidos se confundem, os olhares se cruzam e sentem, não são mais um do outro.
Um sorriso longe me chama atenção. Que audacioso. Provoca-me, irrita-me.
Saber reconhecer um sorriso é fundamental nesses casos de sentir.
Minha face transfigurada, ela se molda as novidades em meu ser.
Como aceitar essa imposição? Não existe uma formula, existe a vida e essa é tão complexa quanto os verbetes de um dicionário em chinês.